O QUE ME DEIXA MAIS INDIGNADA É SABER QUE O MESMO DEPUTADO SERÁ REELEITO POR SEUS ELEITORES ANALFABETOS POLÍTICOS, QUE EM SUA MAIORIA,SOBREVIVEM COM SALÁRIO MÍNIMO.
Deputado João Caldas diz que não dá para sobreviver com salário de R$ 12.800
Da Redação /uol
Promessa é dívida. O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, cumpriu o que prometeu em campanha e tornou prioridade absoluta da Casa o aumento do salário dos deputados. E que aumento! De 67%. O salário vai de R$ 12.847 para R$ 21.500. Retroativo a janeiro. Mas não é só isso, não: em janeiro do ano que vem tem mais. Mais 14% - quase o triplo da meta de inflação para o ano todo, que é de 5%.
E, pela proposta, os senhores deputados passam a receber R$ 24.500. Quase o dobro de hoje. Ou 91% a mais do que os quase R$ 13 mil que eles recebem hoje. Isso fora o auxílio-moradia, as cotas para telefone e correio, verba indenizatória, verba de gabinete e mais 4 passagens aéreas mensais de Brasília para a capital do Estado de cada um.
Ou seja, hoje cada um custa R$ 70.125,75 por mês aos cofres públicos. E a Câmara é formada por 513 deputados. Sim: 70.125,75 vezes 513 é igual a um desembolso mensal para o Tesouro Nacional de R$ 35.974.509,75. Já o reajuste do salário mínimo do brasileiro, que está em R$ 260 e passará a R$ 300 em dois meses, foi de 15,38%.
O deputado João Caldas, do PL de Alagoas, 4º secretário da Mesa Diretora da Câmara, é a favor do aumento. Em entrevista ao UOL News, admitiu que o reajuste é injustificável, mas defendeu suas razões. "Acho que não dá para pegar o salário de um deputado para ser a palmatória, o bode expiatório. O assunto é polêmico mesmo, não dá para justificar, mas se você for analisar as injustiças e distorções do Brasil, quem ganha mais ou menos, você vai questionar muitas coisas".
Segundo ele, muita gente confunde um deputado com uma instituição e isso acaba empobrecendo os políticos. Caldas afirmou que os parlamentares do Norte e Nordeste sofrem mais, porque vivem muito perto de seus eleitores. "A responsabilidade com o eleitor não tem limite. É desde favor pessoal a todos os tipos de favores. Se fosse um salário pago para viver sua vida profissional seria suficiente, mas no mundo político não é. Isso você gasta num piscar de olhos, porque a demanda é muito grande. Os deputados são de acesso fácil e quando você vai ver, termina no vermelho".
O alagoano também contou porque apóia o aumento. "Foi um ato de solidariedade com o presidente Cavalcanti, que empunhou a bandeira. Se a Câmara vai aprovar ou não, eu não sei. Sei que será votado. Há reação dentro do próprio Congresso". Questionado se é a favor do aumento, explicou: "Eu não posso discordar de uma coisa que assinei. Assinei porque concordo com a isonomia entre os poderes. Os poderes são interdependentes, mas são semelhantes. E a igualdade começa pela isonomia salarial".
João Caldas propôs um desafio: "Dou meu salário para quem quiser. Dou para a pessoa administrar e ela vai administrar o que recebo de remuneração como deputado e terá de atender as demandas. E só está autorizado a gastar 30%, porque o resto você não vai fazer e não vai agüentar. Não vai dormir, não vai ter condições de ficar em nenhum lugar. Como você está nesse jogo político, tem de aceitar ou sair da vida pública".
Bom para o Brasil João Caldas falou que o reajuste salarial no Congresso pode ser bom para o Brasil. "No final do ano a Mesa vai reduzir drasticamente os custos. Já foi criada uma comissão de estudos para acabar com esses custos altíssimos. E espero que o Congresso comece a tapar os ralos que tem da sociedade. Não é o salário de um deputado que será o mal do Brasil. Talvez seja o bem. Talvez com esse salário, com os deputados tendo condições de sobreviver e de atender suas bases, eles pensem um pouco mais e parem de fingir que não vêem certas coisas. Se você deixar um deputado à míngua, sem condições de acompanhar sua base e até de viajar a seu Estado, ficará fragilizado".
Você concorda com o aumento dos salários dos deputados? A repórter Isabel Baeta entrevistou alguns paulistanos, de classes sociais diferentes, para responder a essa pergunta. Todos foram unânimes: não! Leia abaixo os depoimentos.
"Considero isso um atentado à minha inteligência. Isso não poderia ser cogitado e muito menos ser levado à votação", Teresinha Silva, jornalista.
"Acho um absurdo, porque vão aumentar cada vez mais o salário deles e o da gente fica cada vez mais baixo. E as coisas estão subindo muito de preço", Edna Santos, vendedora.
"Quer dizer que eles podem trabalhar duas, três horas por dia e ganhar R$ 20 mil e a gente, que trabalha 15, 18, 20 horas ganhar R$ 300?", Eduardo da Silva, segurança.
"Quando é algum assunto em benefício próprio sempre agilizam as votações. Acho que não merecem. Eles têm dívidas com a população em vários outros assuntos. E têm vários outros assuntos para pensarem antes de legislar em causa própria", Augusto Simonetti, analista de sistemas.
"Deviam estar lutando pelo povo e não por eles, porque o nosso salário é horrível e o deles já é alto demais", Carlos Lima, assistente financeiro.
"Estão falando em R$ 21 mil. Isso é um absurdo para o que fazem, recesso, isso e aquilo. É um absurdo!", Henrique Pequeni, contador.
"Deveriam usar esse dinheiro para outra coisa: Fome Zero, 1 ou 2, menos para aumentar salário de deputados", Julio Duran, analista de sistemas.
A justificativa Para o deputado, os brasileiros não concordam com o reajuste porque desconhecem a realidade. "O povo não é a favor nem de 5, nem de 10, nem de 20. O ralo do Brasil não está nos salários dos deputados. Ai se o povo soubesse a verdade. Seria muito barato para o povo. O problema é que a conta está sendo feita errada. Conheço milhares de executivos que ganham mais do que um deputado, e trabalham empresas que vivem em função do erário. Se não fosse o erário essas empresas iriam à falência. O povo não tem essa consciência crítica ao pé da letra, que estamos ali legislando para o povo".
Escrito por Amanda Tote às 10h39
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